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Dois Versos, Uma Moça

A Bahia de negra graça Faz na beleza da raça... A moça de lindos traços O sorriso o rio largo Os cachos coqueiro alto Os olhos jambos em salto Onde encontrei meus dois versos: A Bahia de negra graça Faz na beleza da raça...

As origens do nosso verso popular

II  “Quando um homem de nosso tempo é extravagante a ponto de desejar familiarizar-se, tanto emocionalmente como intelectualmente, com uma época tão fora de moda como o séc. XII, poderá tentar consegui-lo de diversas maneiras”, escreve Mestre Ezra Pound no seu referido ensaio. As maneiras sugeridas pelo mestre são basicamente três: ler as próprias canções nos livros antigos ou pergaminhos cobertos de iluminuras; tentar ouvir os versos acompanhados de música; e ainda, percorrer em pesquisa as estradas das colinas e dos rios da região de Provença. Como nosso objetivo é outro, iremos aproveitar, no possível, sugestões dos mestres anteriores em relação ao método.                 As trovas não têm fim.                 Da região de Provença foram para Espanha e de lá para a Galícia. Nosso segundo guia é o Roteiro Literário ...

Desviando o Caminho

A bailarina Tem quatro mãos Que tocam vãos Da nossa sina Que se destina Saber planar Saber tocar Todos espaços Em tais compassos Se equilibrar. Sabe planar A equilibrar A bailarina Na nossa sina Em tais compassos Todos espaços Que tocam vãos Com quatro mãos E mão destina Saber tocar. Tem quatro mãos A bailarina E mão destina Equilibrar Saber planar Na nossa sina Em tais compassos Saber tocar Todos espaços Dos toques vãos.

As origens do nosso verso popular

          I           Em outros dois pequenos ensaios postados aqui falei do trovador. Um pouco da matriz portuguesa, já largamente difundida, como da matriz africana, que por muito tem sido desprezada. A nossa literatura popular em verso sofreu a confluência da cultura negra (com seus cantadores) e indígena (no seu contato com os jesuítas), logo, sua formação e evolução difere daquela vinda dos trovadores da península ibérica, esses mesmos influenciados pela cultura árabe-negra em suas origens.           Vamos por tempo tratar do tipo europeu.           Num belo e erudito ensaio “Trovadores – tipos e condições” do mestre vanguardista Ezra Pound, que nos servirá como primeiro guia, ele diz que “A fortuna dos trovadores variava tanto quanto sua categoria, e eles provinham de todas as classes ...

Cantiga à Bela Citadina

No lugar que exploram, moça, Mais-valia da beleza, Canto versos novamente. Aqui o sol é luz acesa, Aqui o frio é geladeira, Aqui a feira é fortaleza... Canto versos novamente. Onde repousa meu olhar Porém tudo é natureza, Natureza sinuosa, Como as curvas duma serra, Vales com fonte formosa, Montes de forma manhosa Onde repousa meu olhar... Canto versos novamente, Quem dera explorar seus montes Subindo com mãos a serra, No pico descer aos vales, Dos vales correr na terra Escura e de chão macio Onde repousa meu olhar... Onde exploram a beleza Canto versos novamente...

História de Índio

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No buraco da chuva Tem garça grande E menino índio que no céu ande Se pondo a perturbar. O menino danado, Sabendo que garça tampa buraco, Jogou grande pescado P'rá garça traçar. Ela pescou peixe dourado, Depois d'um pé só ficou... Assim se acostumou, Aí a chuva se criou.

TURBANTE AOS OLHOS

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Espero que Tempo ajude, Faço pedido a Oxalá Pois é tão bonita a moça Para que veja sem olhar... A moça que abaixo os olhos, Iaiá desse lindo ojá. Trago do tempo da roça A forma de se encantar, Torço seu torço no verso Sem saber o que falar... Desvio, olho, se não olha, Ojá dessa linda iaiá.

PARA MOÇA E A VIDA BAMBA

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Foto: Fabiana Maia A vida, essa corda bamba, E esse equilíbrio da moça Superando a força bruta, A gravidade dos fatos... A vida, esse belo samba, E esse equilíbrio de acordes Supera todo silêncio Da gravidade dos fatos... Lembro da moça nas lutas E quem luta, luta sempre; Desequilíbrio dos fatos Para o equilíbrio da vida. A vida que acorda em samba, A vida que acorda a bamba Na gravidade dos fatos Que seu sorriso supera.

A Literatura de Cordel e a Influência Africana

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Praça Inácio da Catingueira em Catingueira Paraíba Fonte da Imagem: http://lindeiltonleite.blogspot.com/2009_05_01_archive.html      Quando se pergunta as origens de nossa literatura de cordel a resposta é sempre a mesma: o cordel tem origem lusitana. Os cordelistas da academia difundiram essa tese com base nos estudos de Luís da Câmara Cascudo, contudo, se lermos com atenção o mesmo autor, veremos que não é bem assim. Há poucos dias recebi de presente do amigo Carlos Verçosa, mestre em haicai, quando fui beber um Jatobá lá no Sodré, onde viveu e morreu Castro Alves, dois volumes da Fundação Casa Rui Barbosa intitulado “Literatura Popular em Versos” um de Estudos e outro de Antologia. Foi o que faltava para embasar o que eu e outros poetas populares já sabíamos: a literatura de cordel brasileira também tem origem africana. Deixo a palavra agora com Manuel Diégues Júnior no seu estudo “Ciclos Temáticos na Literatura de Cordel” do referido volume: Esta ...

Inspirado em foto de moça distante

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                                      Foto do ensaio "CorpoRevelado" por Marina Silva Nem sei os passos da moça, De tão linda fiz poema, Escolhendo a foto por voto Nem se preocupei com tema. E sem saber dessas normas, Sei da expressão de tristeza, Sei da expressão de ternura, Sei na meiguice a grandeza E sei no gesto o suave, A elegância e a fineza. Não sei se a moça olhava a terra, Como mãe de carne e sangue; Quem sabe expressão mais dura De alguma coisa que nos zangue. E quem sabe da beleza Sabe bem que impressiona Entrego esses versos singelos De quem a beleza é dona.

Bloco Boca de Brasa - Carnaval de Salvador 2011

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Letra da nossa marchinha Sou viciado em viver A vida fazendo versos... Poeta de peito aberto P'ra todas dores do mundo No carnaval vamos fundo Marchando até no deserto... Sou viciado em viver A vida fazendo versos...

No Galope Martelando o Carnaval

A Bahia que é terra da alegria Com a tristeza debaixo do tapete, É madrasta que bate com cacete, Espremendo nas cordas da folia Todo filho que não compra a alforria P’ros galopes do inverso do divino, Com cordeiros de Deus cantando em hino O nocaute no pobre moribundo; Ôh mundinho que raso não vai fundo, No qual funda a tristeza e o desatino.

Cantiga a moda antiga

Como pode o jardineiro Evitar assim a flor, Como pode moça a lua Nascer sem o sol se pôr... Podendo assim como o não É só maneira do sim, Como tantas vezes versos Se foram e vieram em mim. Evitei a mim moça linda, Mas um certo dia eu vi Num jardim de tantas rosas Uma flor que me perdi; Deixando rosas de lado Quis aquela flor por bem: Sempre viva no meu peito Da sempre-viva eu refém. Evitei a mim linda moça, Até um dia no Solar Ver o Sol junto com a Lua No céu a tarde a namorar; Depois o Sol foi dormir E a Lua moça traquina Brincou com constelações Na noite de quina a quina. Por fim, na esquina do céu, No jardim de cheiro bom, Numa trova a moda antiga Descobri qual nosso tom: A sempre-viva entre rosa, O Sol vivendo com a Lua, Verso com dedo de prosa... Quem sabe a gente na rua.

Trova-net

Moça me pede um poema, Pede pedindo favor... Fiquei sem saber qual tema, Se amizade ou se é de amor.

Triolé

Do morro vejo amplidão, Da maré vejo infinito, Ao chão coisas como são... Do morro vejo amplidão, Sem santo sem mundo cão Contra maré o morro fito... Do morro vejo amplidão Da maré vejo infinito.

Bailarina ensina... Me ensina a dançar

É que não sabia; Aquela ternura, A sua doçura, A minha alegria Na serra tão fria Sem me agasalhar, Somente a brincar Em fala traquina: Bailarina ensina... Me ensina a dançar. Agora é passado, Agasalho deu E ele se perdeu, Mas lembro trançado, Tricô vermelhado Bonito de amar; Fui com ele andar Sem saber menina, Bailarina ensina... Me ensina a dançar. Quem sabe soubesse Hoje além do passo, De verso que laço P’ra que nunca cesse Ou sempre regresse  Os tempos de lá, Outros passos dar Nessa minha sina, Bailarina ensina... Me ensina a dançar. Talvez algum dia, Assim no destino, Começo e termino A nossa poesia Em doce harmonia A lhe recitar; Se tempo deixar Tempo determina, Bailarina ensina... Me ensina a dançar.

A pureza da piriguete

  “Muitas coisas verdadeiras são soberanamente maçantes.                                                                             Assim, a metade do talento é escolher dentro do                                                                         ...

Cantiga Natalina

O natal de Deus menino Com um anjo querubim Sem enfeite p’ro presente É feliz do início ao fim Pois é só mais uma festa E na festa faz assim... Tem tem... din din... tem tem... din din O Noel que não é Deus Mas se diz papai também Dá presente p’ra quem compra Mesmo o vinho do armazém Sem as luzes pisca-pisca No natal de quem não tem. dim dim... tem tem... dim dim... tem tem Que salve salve o Noel O estoque está bem no fim Mas gente que ganha pouco Compra presente ruim O natal é solidário Sendo assim se compra sim... Din din... tem tem... dim dim... tem tem No natal de Deus menino... No natal d’aquele alguém No natal de Deus menino... No natal de quem não tem No natal de Deus menino Dobra o sino de Belém... dim dim... tem tem... dim dim... tem tem

Madrigal

O que se faz do tempo Se o tempo só separa... A jabuticabeira, A mesma d’olhos negros de criança, Os homens derrubaram. O que se faz no tempo Se o tempo que aproxima... Basta a jabuticaba Ser plantada de novo nesse chão, Para quando vier o céu que chora, Germinar num sorriso... Jabuticaba minha ... A jabuticabeira.

Rema a rima rimador

Poeminha sem rima Desço Os Aflitos aflito... Bem antes do sol se ir, Fiz um poema p’ra lua Que só apareceu na noite.             Hoje vou falar da rima. Rimar na prosa é em geral defeito estilístico. No verso a rima tem função melódico-harmônica e mnemônica. Como não cheguei ainda a tratar da melodia, tampouco da harmonia do verso, tratarei a rima como noção intuitiva. Só chegarei rasteiramente às noções didáticas. O blog segue essa sequência de oficina p’ra iniciantes, e caso não morra, chegarei aos devidos aprofundamentos dos temas. Assim, para melhor compreensão, o leitor deve sempre retornar a postagens anteriores.             Feito o preâmbulo prosseguiremos.             “Rima é a uniformidade do som na terminação de dois ou mais versos” disse o mestre Bilac em seu tratado. No mesmo, ...