A pureza da piriguete

 
“Muitas coisas verdadeiras são soberanamente maçantes.
                                                                            Assim, a metade do talento é escolher dentro do
                                                                                                  verdadeiro o que pode se tornar poético.”
                                                                                                                    Balzac
                                                                                                                        "Piriguete também ama!"
                                                                                                                         D'uma piriguete da Federação, Salvador.          

No interior gosto da roça, na capital adoro a favela. Deve ser porque nasci na favela e fui criado solto nas mangas. Atualmente moro numa favela em Salvador. Da casa que moro assisto de camarote os pagodes da minha terra. Os pagodeiros e pagodeiras são os únicos, junto com as irmãs e irmãos do hip-hop, a me chamarem de poeta. Não sabem eles quanto fico lisonjeado por isso. Às vezes, como bons índios que também somos, ficamos na roda conversando sobre os alemães, a repressão policial e outras crônicas correntes na comunidade.
Deixarei pra outra feita esses diálogos e fitarei meu olhar numa moça.
            Moça, mocinha na flor da idade. Nunca perguntei o nome dela. Vejo-a requebrando no pagode dos fins de semana. Quando nos afastamos um pouco do mundano podemos separar as coisas. Olho tudo d’um mirante particular. Moça, mocinha linda, porém piriguete. No trato como fato social a piriguetagem contemporânea, resultado inconsequente da liberação sexual da mulher e perpetuação cultural do machismo, sempre existiu com outros nomes: doidivanas, boneca de trapo, malandrinha, ladrona, pistoleira e outros tantos adjetivos. A primeira vista a piriguete é o inverso da antiga piriquitete. Enquanto esse adjetivo era usado pra mulher que se veste com decência e sem ostentação, a nossa se veste indecente, ostentando a única coisa que possui – o corpo.
            As piriguetes são um problema sociocultural.
            Contudo não são uns corpos sem alma. É da alma duma delas que quero um pouco falar.
            Aqui donde escrevo tem três entradas ou saídas. Uma das, é um beco de chão barroso que serve de sindicado à juventude local. Depois do beco vem uma ruazinha com a beleza nostálgica do morro. Nessa mora a moça. Devo ser para ela uma figura exótica: chinela de couro, chapéu, barbicha mal feita e com minha feiura singular. Vou pela ruazinha sempre que posso: gosto do traço das casas, das cores, dos meninos aprendendo cavaquinho e pandeiro. Dirão talvez ser eu romântico. Mas de certo, tudo isso é muito poético pra mim.
Ela é negra, rosto de traços fortes e de expressão dengosa, cabelos dum cacheado postiço, corpo em curvas arredondadas com andar de elegância rústica. Logo quando cheguei por aqui ouvi-la dizer, “gostosa sou eu!”, porém, quando me avistou, abaixou a cabeça no que diriam sonsice.
            Não era sonsice.
            Duns tempos pra cá a moça andava contemplativa. Seria uma paixão adquirida ou perdida, seria problemas familiares ou na escola. Não sei. Sei que passava e ela olhava-me e desviava o olhar para um horizonte só seu. “Oi moça, tudo bem?”, respondia um simples “oi” monossilábico, depois calava, mesmo estando junto com as amigas, contrastando com a piriguete conversadeira que cansei de escutar no beco. Numa dessas passagens por lá, estranhei-a cochichando com uma parceira de piriguetagem. Como ouvido de poeta só é comparado ao de mulher ciumenta, escutei dizendo que mudaria o guarda-roupa nas compras de fim de ano.
            Esperei assim a troca.
            E veio em surpresa... Alguns dias atrás passando pela viela, meus olhos fixam num vestido parecido às domingueiras das moças do interior. Do vestido passo pro passo que lhe veste. Do passo que lhe veste passo pro rosto que lhe sustenta. Era a moça. Não aguentei e disse, “moça... ‘cê fica bonita com esse vestido”, e adiantei o passo. Já chegando ao beco escutei um balbucio de alegria, virei e era a moça pulando e sorrindo contente. Não pulei, mas sorri. Cheguei em casa ainda conservando o sorriso na lembrança da mocinha satisfeita com o elogio. Talvez, quem sabe, por nunca receber um tal.
            Mais recentemente outra novidade, a saia que era mini já não é, e a bermudinha que cortava a bunda em banda já não corta. Camisetas decentes; até bordado a moça deu pra usar. Pensei então ter se convertido ao evangelho. Que nada. Nos fins de semana tava a moça lá no seu pagode de lei.
E do pico continuo a fita-la.
Outra surpresa. Não mudou apenas as vestimentas, mas o comportamento. Cruza as pernas, paga o que consome e escolhe com cautela o homem que quer. Será um amor, um desamor, a personalidade forte de outra mulher... não sei...nem sei...
Sei que a moça. A mocinha linda. A piriguete. Torna-se uma bela mulher emancipada. Sem perder, assim, a baianidade jamais.
             

Comentários

Andréia disse…
Junior, que linda observação você fez... Implicitamente, você nos faz deixar de lado os "pré conceitos" impostos pela sociedade, a mesma que cria estas figuras, para que possamos enxergar o ser humano e não somente a sua representação. Lindo texto.

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