A Literatura de Cordel e a Influência Africana

Praça Inácio da Catingueira em Catingueira Paraíba
Fonte da Imagem: http://lindeiltonleite.blogspot.com/2009_05_01_archive.html




     Quando se pergunta as origens de nossa literatura de cordel a resposta é sempre a mesma: o cordel tem origem lusitana. Os cordelistas da academia difundiram essa tese com base nos estudos de Luís da Câmara Cascudo, contudo, se lermos com atenção o mesmo autor, veremos que não é bem assim. Há poucos dias recebi de presente do amigo Carlos Verçosa, mestre em haicai, quando fui beber um Jatobá lá no Sodré, onde viveu e morreu Castro Alves, dois volumes da Fundação Casa Rui Barbosa intitulado “Literatura Popular em Versos” um de Estudos e outro de Antologia. Foi o que faltava para embasar o que eu e outros poetas populares já sabíamos: a literatura de cordel brasileira também tem origem africana. Deixo a palavra agora com Manuel Diégues Júnior no seu estudo “Ciclos Temáticos na Literatura de Cordel” do referido volume:


Esta influência, de origem lusitana, da cantoria dos fatos acontecidos e da formação do grupo para ouvir a leitura ou o canto narrado, não foi única; aqui no território brasileiro, e em particular no Nordeste, se encontrou com uma outra forma cultural muito semelhante: a de origem africana. Também os escravos vindos para o Brasil tinham não somente seus trovadores como também o hábito de contar suas histórias, cantando ou narrando; são os famosos akpalô registrados pelos especialistas em estudos africanos no Brasil. Em uma de suas obras, Luís de Cãmara Cascudo recorda: “Toda África ainda mantém seus escritos verbais, oradores das crônicas antigas, cantores das glórias guerreiras e sociais, antigas e modernas, proclamadas das genealogias ilustres” .

     Até as formas de estrofação mais populares na literatura de cordel já existia no seio das “negras velhas contadoras de estórias, narradoras fecundas de décimas ou sextilhas...” como afirma ainda o próprio Diégues. Por essa tradição, nossos melhores cantadores foram negros e o maior de todos cantadores do Nordeste o escravo Inácio da Catingueira. Este mesmo que num trecho da famosa peleja (1870?) com Romano de Teixeira, numa das dezenas de versões, cantou:

Coisa que eu faço no mato
Ninguém faz no tabolero
O que o branco faz no duro
eu faço num atolero;
O que faz no mês de março
Eu tenho feito em janeiro,
O branco bem amontado
O nego em qualquer sendeiro
A concessão que lhe faço
É correr no meu acero
Embora o diabo lhe ajude
Eu derrubo o boi primeiro.

     Inácio da Catingueira vem da tradição dos negros contadores de histórias, os bantos, que tanto influenciou o ritmo e poesia brasileira. Ao lado da influência dos bantos temos em outro artigo do mesmo volume da Casa Rui Barbosa “A compadecida e o Romanceiro Nordestino” do mestre Ariano Suassuna, no qual ele fala das influências da literatura de cordel na composição do Auto da Compadecida, a seguinte confissão referente ao terceiro ato:


“...Mas essa influência ibérica foi muito menos direta, para a criação do terceiro ato, do que a de um auto popular nordestino, O Castigo da Soberba, citado por Leonardo Mota e Rodrigues de Carvalho – sendo que a versão citada por este último chama-se A Peleja da Alma e tem autor conhecido, o Cantador paraibano Silvino Pirauá Lima. O que pode acontecer é ser esta história, como as outras duas, também de origem moura ou ibérica, com as raízes fincadas nesse mundo mítico mediterrâneo que é tanto peninsular como árabe-negro, e, portanto, brasileiro e nordestino.”

     É que todos são sabedores da influência árabe-negra no trovadorismo europeu. E mais ainda, sabedores que em Portugal, essa tradição fundiu-se à dos medajs, poetas cantores árabes que narravam suas histórias acompanhados por instrumentos musicais. E foi desse movimento que surgiu a literatura de cordel. O espantoso é como se difundiu uma versão da origem puramente lusitana no nosso cordel, pois o próprio cordel lusitano já tinha sofrido a influência árabe-negra em suas rimas e temas. Quando os primeiros poetas e cantadores chegaram ao Brasil foi o batuque africano que soou mais alto, escutamos isso no Baião, no Coco, na Embolada e nas rimas ágeis e fáceis dos nossos melhores cantadores e poetas populares em sua maioria africanos ou afro-brasileiros. Nem aqui nem em Portugal existe a pureza lusitana que vendem sobre nossa Literatura de Cordel.
     Continuarei com meus estudos práticos e teóricos que me fazem cada vez mais escutar os tambores da áfrica em meus versos.









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