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Para uma percussão poética

     Das conversas que tenho tido com amigos percussionistas e do meu trabalho como arte-educador andei refletindo sobre o ritmo e poesia popular. Desses estudos e reflexões concluí que as semelhanças entre música e poesia ultrapassam a mera coincidência de ser duas artes que tem como matéria o som. O ritmo musical tem sua origem relacionada ao ritmo poético. Nos versos da antiguidade clássica observamos a dependência do primeiro ao segundo: É que o acento das palavras e sua duração em breves ou longas eram reproduzidos no acompanhamento musical. Isso atravessou milênios e a música só se libertou por completo do ritmo poético por volta do séc. XIX. Mas a música popular, aquela feita para dança e rituais – e como a maioria feita hoje para fins comerciais –, inda depende do ritmo poético.      Para o poeta a divisão silábica é feita pela fala e não pela gramática, disso resulta ser a sílaba poética ligada à pronúncia, à sonoridade das palavras n...

As voltas em torno do sol

Os anos passam no tempo e no espaço mesmo que o tempo seja ruim e o espaço apertado. A aparente calmaria toma conta do mundo em crise. As guerras se fazem inda nos mesmos territórios e pelos mesmos motivos . Já a fome, essa expandiu um pouco para barriga dos gordos. O tempo continua de mediocridade. A massa vive no calendário lunar: em tempo mensal ou até quando acabar o salário e receber o próximo; as pequenas e médias empresas e seus respectivos donos vivem no tempo do balanço anual; as grandes vivem seu planejamento de cinco ou dez anos; e as transnacionais fecharam seu ciclo de trinta ou quarenta anos arrastando o mundo para mais uma crise. A eternidade é coisa do divino. O preâmbulo acima é só para mostrar que contar e comemorar as voltas que o planeta faz em torno do sol, as que damos junto com ele, é pura convenção. Na realidade o tempo humano depende de como produzimos e reproduzimos nossas vidas. Faço trinta e duas voltas nesse ano e quem sabe faça mais uma revirav...

Destrinchando a História da Donzela Teodora* - Um Clássico da Literatura de Cordel

       A literatura de cordel desde a sua origem reflete o imaginário popular de sua época. Muitos poetas e escritores eruditos viram nesse gênero algo de reacionário e retrógado: Histórias de reis, nobres ou burgueses que tinha nada haver com a realidade do povo. Mas, quanto mais pesquisamos esse gênero genuinamente nordestino, vemos que o cordel sempre esteve à frente ou à par de sua época.      A História da Donzela Teodora de Leandro Gomes de Barros, datada de 1905, é um bom exemplo disso. Trata-se de um romance em redondilha maior, 142 estrofes em sextilhas rimando os versos pares (xaxaxa), forma mais comum da literatura de cordel. No início do romance o poeta nos informa que a história não é por ele inventada, sim descrita direto de fonte da tradição oral:                               “Eis...

A Bahia só nos dá régua e compasso

          Quando menino andava pelas mangas e ouvia o aboio do vaqueiro, pensava eu, na minha inocência, que esse homem conhecedor dos brejos e cachoeiras era dono daquela terra toda.           A inocência passou como passou o boiadeiro.      O que ficou foi minha memória e o que nem sei onde aprendi. Sei que aprendi na Bahia, parte na região cacaueira onde vivi a infância, outra parte na capital, no sertão e no recôncavo onde passava férias com meus avôs.     O boiadeiro foi meu mestre nas mangas. O mestre popular tem a peculiaridade de não se passar por mestre, depois é que damos o título quando reconhecemos seus profundos ensinamentos.     Hoje os mestres que me ensinaram, alguns mortos, muitos vivos e velhos, estão desmotivados, desconfiados e desesperançosos com o mundo.      É que tudo começou na Bahia: nossa alegria e trist...

O PAPEL EM PRETO E BRANCO DO POETA POPULAR

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                                                                                     "O argumento é comum                                  Pode bem argumentar,                                  O caso também é simples          ...

Próximo Lançamento - O Romance do Princípe Poeta

               Tem uma linda princesa!                Amor e verso, o poeta!                Tem a invensão da palavra                Como a mais antiga meta,                Um romance do fantástico:                Moça chora, ao bruto afeta...

Outros Cordéis...

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   Uma crítica à música contemporânea! Uma crítica ao homem contemporâneo! Ilustração: Igor Reis Valor: R$ 5,00 ( para fora de Salvador e outros estados será acrescido o valor do frete.)

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A fabulosa História do Reino-Sem-Razão Autor: Osmar Machado Jr. Xilogravura: Paulo Luz Fábula de uma terra mágica que trata das contradições da sociedade contemporânea. A razão, que se acredita ter erigido esse mundo, tem sua validez posta em dúvida ao observamos as loucuras a que nos conduziu. As desrazões são expostas com humor e sensibilidade sugerindo uma reflexão acerca desse tema. Valor p/ venda: R$ 5,00 (Para outras cidades e estados ao valor será acrescido o frete) Ou baixe grátis: http://www.4shared.com/document/fLhH8YdQ/A_Fabulosa_Histria_do_Reino-Se.html   Histórias e Lendas de Oxalá - O Maior Orixá da Bahia Autor: Osmar Machado Jr. Xilogravura: Paulo Luz Oxalá, um dos orixás mais populares no Brasil, é personagem desse livreto que reinventa o universo mítico das lendas africanas. O vocabulário, que utiliza palavras de origem yorubá, já incorporadas ao falar baiano, proporciona uma musicalidade particularmente percussiva. Uma oportunidade lúdica de inseri...

De como o poeta caiu na rede

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     Sou Osmar Machado Jr., poeta popular, cordelista e arte-educador, apelidado na mítica Bahia, minha terra natal, por Tolstói. Sempre suspeitei dessas novas tecnologias, pois fazem a gente desejar uma após a outra, nos transformando em escravos delas. Quando criança queria ganhar uma luneta ao invés de um videogame, acabei ganhando uma máquina de escrever e essa não era elétrica.        Muito relutei para fazer um blog...      Prefiro a reflexão com os amigos íntimos, escrever cartas do que correio eletrônico, prosear com as pessoas do que falar ao telefone, deixar ensaios e críticas para o futuro. Mas fui convencido por outros e dissuadido por mim mesmo das necessidades de criar um.       Estou aqui a escrever a apresentação dele.      Vivi a infância na década de 80 e apesar de inda carregar o peso das tradições, tenho os defeitos e virtudes dessa geração. ...