TRÊS RAÇAS, UMA MUSA

    

     Passei um bom tempo sem prosear aqui. Andei corrigindo a minha vida, estava uma bagunça por fora e por dentro. Resolvi por fora fazer um curso técnico, sou estudante do IFBA, e por dentro resolvi dar atenção maior ao mais natural e importante dos sentimentos (leia os dois sonetos postados) dum homem – a mulher.

     Sinto agora que posso prosseguir minha caminhada com menos ilusões.

     Contudo, não parei meus estudos e produção em literatura e música popular brasileira. Entre uma aula de física ou de programação li o saudoso Sílvio Romero . Este, como muitos sabem, desenvolveu no final do séc. XIX ao início do XX uma vasta pesquisa e crítica sobre nossa literatura popular. Para o pesquisador nós somos um produto da mestiçagem de três raças: o negro, o índio e o branco. Quando não somos mestiços na cor, somos nas idéias. O que chamou minha atenção e me clareou o juízo foi como se processou esse fenômeno na poesia popular brasileira. Digo a poesia, mas o próprio mestre escreve que “nas produções da musa popular a poesia, a música e a dança se entrelaçam por tal modo, que muitas vezes é impossível dizer qual delas predomina” .

     Na literatura nacional, como aconteceu com outras literaturas coloniais, primeiro houve o fenômeno da justaposição dos falares indígenas e africanos com os de origem portuguesa. No tratar da justaposição de versos tupis e portugueses o primeiro estudioso foi Couto de Magalhães. Leia as quadrinhas por ele colhidas da boca do povo no nordeste no início do séc. XIX:



                              Te mandei um passarinho,

                                   Patuá miri pupé;

                              Pintadinho de amarelo,

                                   Iporanga ne iaué.



                              Vamos dar a despedida

                                   Mandu sarará,

                              Como deu o passarinho,

                                   Mandu sarará,



                              Bateu asa, foi-se embora,

                                   Mandu sarará,

                              Deixou a pena no ninho,

                                   Mandu sarará.



     Agora leia essa em kimbundu e português colhida pelo próprio Sílvio Romero cantada por uma baiana filha de escravos, a senhora na quadrinha é a Nossa Senhora do Rosário:



                              “Nosso rei do Congo,

                                   Mumbica,

                              Onde havemo’ achá-lo,

                                   Senhora?



                              “Ai, ai, tesumento,

                                   Qui tate,

                              Ai, ai, cambaete,

                                   Senhora...”





     No início nossa poesia popular foi assim, depois como mostra o mesmo Sílvio Romero houve uma fusão dos falares. Assunto que deixarei para outra prosa.

 
 
 
 
Bibliografia:
 
ROMERO, SÍLVIO. História da Literatura Brasileira.Tomo Primeiro (Contribuições e Estudos Gerais para o Exato Conhecimento da Literatura Brasileira). RJ. 6ª Ed. Livraria José Olympio Editora.

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