O NOSSO TEMPO

          Tem tempo que não escrevo uma prosa para o blog.  Nasce gente e morre gente. Eu me perco e me encontro no destino que faz seu tempo em linha curva. Nosso tempo é tempo de pesquisa e descoberta... dos talentos maltratados, dos planos frustrados... dos poemas desiludidos.
          Bom tempo nós vivemos. Não existindo outro tempo, além desse presente de Prometeu, nós ficamos com ele mesmo. Sem lutas de ideias, sem causas nobres, sem pensar no futuro além das baleias, vamos seguindo, rodopiando nessa grande nau dos insensatos.
            Mas dirão: “ Lá vem o poeta com filosofia... só sabe criticar, nada faz além duns versos bobos”... Ou dirão os mais astutos: “ Poeta é só poeta e nada mais”. Então, ou devo calar para sempre ou fazer algo além duns versos pobres e medíocres.
          Na certeza que faço quase nada no quase nada que nos reduzimos, sigo adiante.
          Esses dias sem prosa no blog eu recebi muitas críticas. Umas em relação à poesia que faço, outras sobre o que faço da minha poesia.
        Digo que a poesia que faço é a única que posso fazer. O que faço da minha poesia é proporcional ao que é feito no nosso tempo... quase nada. Não que não tenha projetos, esses mantenho em silêncio com os amigos. Sei que tudo que faz no tempo permanece no tempo.
  Assim dou tempo às coisas.
       Mantenho, apesar das dificuldades, as pesquisas em poesia popular e música popular brasileira. Tenho visto muita coisa boa: jovens aproximando e renovando aos poucos nossa cultura de raiz; o estado tomando algumas pequenas, porém valorosas, iniciativas para melhoria de acesso e difusão da nossa cultura popular; além dos mestres vivos e sua fonte inesgotável de sabedoria. Tudo isso é de muito valor no tempo do quase nada. Já falei, em postagens anteriores, sobre o papel do poeta popular, não entrarei de novo nesse assunto. O que falo agora é do nosso tempo. Nele vejo, sem pessimismo, que as questões mais fundamentais são postas de lado.
    O tempo do quase nada é o tempo da superficialidade.
     Querem quantidade em detrimento da qualidade. Sem saber que estamos cheios de coisas descartáveis. Mas, emerge aos poucos, do lixão que fizeram do mundo antes e durante a crise econômica e cultural que vivemos – a qualidade. Tem gente boa por aí fazendo um quase tudo em suas respectivas áreas. Entramos num tempo em que é necessário abrir o leque de possibilidades. Pois, como são poucos os artistas sérios, esses terão que fazer um quase tudo para enfrentar o quase nada de nossa época.   
         Esse é nosso tempo... o tempo do quase nada é o tempo do quase tudo...
    Precisamos, e não tenho tendências para profecias, transformar o quase nada em nada e o quase tudo em tudo.
Tem palavras caras para mim, essas, na minha insignificância, não ouso tocar.
Para reflexão final tem uma frase que sempre ouço por aí:
“Isso é um acontecimento histórico!!!”.
Suspeito que o único acontecimento histórico da nossa época é ela não ter sequer acontecimento histórico algum.
       Enfim, nessa prosa que diz quase nada, me disperso e despeço do leitor.

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