O Corpo do Verso I




      Quando o caso é extenso melhor dividir em partes.


     Em outro pequeno ensaio postado aqui falei do ritmo poético*. Prometi falar da métrica. Aconselho aos navegantes retornar a ele. Não que se trate de assunto difícil, mas é que a ordem do dito aqui pode alterar o produto do lido aí.


     Como não tenho cumprido muitas promessas feitas nas postagens anteriores, sem muita demora vamos ao assunto.


     O ritmo é o espírito das palavras, o metro é o corpo do verso. Ou, academicamente falando, o metro é o modelo, a competência da qual o ritmo é a realização individual, o desempenho, a performance.


     No mesmo metro existe vários ritmos. Existe o mesmo ritmo em metros diferentes. E isso serve tanto pros poemas de verso dito livre como pros de métrica silábico-acentual.
        
     Fiquemos somente com o último.
     A métrica utilizada nos poemas populares geralmente é internalizada de maneira intuitiva. Passa de pai pra filho, de adulto pra criança, sem que se perceba suas regras. Sabemos, porém, que ela é a mesma aplicada nos poemas eruditos. A diferença é que o poeta popular faz uso da fala corriqueira, ele escuta mais o falar da gente de carne e osso, enquanto o erudito escuta mais o que fala sua biblioteca ou sua cabeça, esta que não deixa de ser também de carne e osso.


     Podemos começar então a falar de metro pela redondilha maior.
     A redondilha maior ou verso de sete sílabas poéticas é a medida mais comum nos poemas populares. Seu ritmo é variado, seu aprendizado é fácil. Fácil porque usado comumente nas músicas populares, ditados e nos pregões dos feirantes.



    
     Escute os exemplos:


Nós temos peixes fresquinhos!
1      2   3   4   5    6    7



Olha o feijão dois reais!
1    2    3  4    5    6  7




     As sílabas sonoras são contadas até a última tônica. No caso do segundo exemplo falamos “Olhao feijão dois reais”, acontece que as duas vogais em itálico se encontram, se juntam na fala comum. Soa assim somente uma sílaba poética.


     Escutemos mais um pouco:


Você diz que dá na bola
Na bola você não dá.


O Pouco com Deus é muito,
O muito sem Deus é nada.


São infinitos exemplos.


     Para fixar a métrica desse verso é bom fazer exercícios como leitura de poema em redondilha, escutar e cantar letras de músicas nesse metro e praticar, sem se preocupar com o conteúdo do verso, a escrita nessa medida. Indico pro iniciante, depois desses exercícios, a construção da quadrinha popular ou trova, como essa:
Pra falar em redondilha
É bem fácil como o quê,
Não precisa muita ajuda,
Só precisa de você.


     Fiquemos por aqui. Quem quiser saber mais sobre métrica olhe nos endereços do lado esquerdo da página, tem muita coisa boa. Ou espere eu dar na telha e postar as outras partes do tema. Ou, quem sabe ainda, ficar ligado nas minhas oficinas ou dos amigos poetas espalhados no mundéu.


     Até a próxima...



*Ver: Para uma percussão poética.



Bibliografia:


BILAC, Olavo e PASSOS, Guimarães. Tratado de Versificação, Rio de Janeiro, 1905, Editoração Eletrônica: Nunes, Ana Luiza e Abelaira, Paulo Mendes.



CAMARGO REGIS, Maria Helena. Manual de Comunicação Poética, 1982, Santa Catarina, Ed. da UFSC / Ed. Lunardelli.



PIGNATARI, Décio. Comunicação Poética, São Paulo, 4º Edição, Editora Moraes.



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