Literatura de Cordel: Somos Quilombo Rio dos Macacos

O Caso do Quilombo Rio dos Macacos






Na terra de todos nós

Como chamam a Bahia

Onde inda se vende negros

Como pura fantasia

Em noites de largo amparo

Desamparo dia-a-dia.


Vendem a beleza negra

Vendem a sua cultura

E desgastam seus saberes

E lhe fazem sepultura

Por onde governa o comércio

Governa também loucura.



Loucura agora acontece

Como antes aconteceu

Na nossa democracia

Sempre a coisa se inverteu

Quando diz poder do povo

Nosso povo que o perdeu.



Local Rio dos Macacos

Território quilombola

Tem na pesca e agricultura

Seu sustento na sacola

Aprendida com o nativo

E o cativo Ketu, Angola...



Escravos de velho engenho

Que quando a usina faliu

Por não terem pra onde ir

De lá o povo não partiu

Criando a comunidade

Que a toda a terra assumiu.


Na Baía de Aratu

Próximo a Base Naval

Quilombola resistiu

Até nosso tempo atual

Mas querem os expulsar

De sua terra natal.


Que não pareça só ideia

Vamos resumir o fato

Além de eles serem negros

Inda são da roça e mato

A cidade cresce e o campo

Sofre múltiplo maltrato.

                                             
Desde a década setenta

Com a cidade crescendo

A indústria da construção

Seu interesse defendendo

Expulsou muita família

Deixou muitos sofrendo.


Lá no Rio dos Macacos

Já foram mais de cinqüenta

Expulsa pela Marinha

Que ao quilombola atormenta

P’ra construir condomínios

De todos os meios intenta.


Até a Vila Militar

Primeira por ser erguida

Comunidade vivia

Em harmoniosa vida

Mas depois dos militares

Começou a ser perseguida.


Sem terem acesso a escola

Sem o direito de ir e vir

Muitos nem conseguirão

Ler esse cordel aqui

E a culpada é a Marinha

Eu continuo a insistir.


Porém quem de lá insistiu

Foi espancado e humilhado

Preso sem qualquer direito

De sua terra exilado

Falta só o navio negreiro

Ser agora retomado.


Os fuzileiros armados

Invadem a comunidade

Mostram e apontam armas

Pras crianças e os de idade

Sejam homens ou mulheres

Causando intranquilidade.


Não basta o que sempre falta

A saúde e educação

Lhes faltam com o respeito

A sua religião

Dois terreiros destruídos

Por eles foram então.
                                                

Que acontece no quilombo

Verdadeiro retrocesso

Não deixam nem trabalhar

Interrompendo o processo

Do plantio e da pescaria

É violência em excesso.


A comunidade e a fome

Que nunca tinham passado

Sofre bloqueio econômico

Imposto pelo outro lado

P’ra desocupar a terra

De toda força tem usado.


Direito que serve aos ricos

Nossa constituição

Para o pobre o que parece

É a ilusão de cidadão

Pois quando precisa dela

É quando nunca lhe dão.

                                               

Com os direitos violados

Por repressão militar

Os quilombolas em risco

A resistir e lutar

Procuraram o governo

Mas o INCRA não pode entrar.


É que para terem a posse

Da terra que já é sua

Precisam delimitar

O caminho, roça e rua

E para isso temos o INCRA

Que nesse sentido atua.


Sem poderem tomar posse

No quatro de março vindo

Um quilombo muito antigo

Bem poderá estar sumindo

Com ele parte da história

Do povo estará ruindo.
                                                  

País que não preza a memória

Dos seus nobres ancestrais

É um país que apaga as velas

E rouba até os castiçais

Deixando o povo no escuro

Sem luz, sem paz e sem cais.


Um país que vende o negro

Como imagem pro turista

Pratica é outra imagem

Dum país militarista

Violador dos direitos

Das tradições e racista.


Mil novecentos e dez

Na Revolta da Chibata

Foram negros que sofreram

E sofrem até nossa data

Com os desmandos da Marinha

Que a negra cor desacata.


Termino por fim denúncia

Sem flores da poesia

Quem sabe até eu faça uma

Se nesse Quilombo um dia

Veja o riso das crianças

Num batuque de alegria.

Comentários

Marta Torres disse…
Poema para entrar nos clássicos brasileiros, ao lado de Castro Alves e demais que denunciaram, com belas palavras, o horror de tamanha violação aos direitos.
Anônimo disse…
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Obrigado Marta, mas assim eu fico avexado... beijos.

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